domingo, 8 de novembro de 2009

LITERATURA | Criação

As maçãs
Suponhamos que havia muitos anos que esperavam por aquelas maçãs, diariamente reparando os caminhões passando carregados. Mestiços do Mucuri - nutrição, tanto quanto desnutrição, também é uma questão étnica. Ali estavam, pois, entre chorar e devorar - e, se chorassem, a polícia, as ongs, os políticos, podiam chegar. Toda uma geração, inúmeros, tornou-se imposssível discutir questões de direito.
Uns queriam caixas, e se lançavam de qualquer jeito, outros queriam apenas umas cinco unidades, mas também estavam afobados, queriam comer na hora, com as mãos sujas, lambendo os beiços. No fundo, havia um consenso em torno de uma espécie de significado do paraíso, o que era isso em termos estomacais. Antes era, e depois também seria, apenas a vontade, sempre em suspensão, de comer maçã - o inferno do desejo.
Estavam saboreando as maçãs, e gostariam muito, muito mesmo, que o motorista também participasse da ceia, enchesse a cara. Olhando nas ferragens, concluíam, pensando com ciência, que o motorista não se sentiria bem, ficaria com pena do dono da firma, sentimento de trabalhador, deixasse ele lá, pois, esmagado. Como esperaram por aquele milagre mediado por um desastre! Finalmente, Deus.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CULTURA | O desmoronamento do IMS

ANELITO DE OLIVEIRA - Como receber a notícia do fim das atividades do Instituto Moreira Salles (IMS) em Belo Horizonte, com o fechamento do seu elegante espaço em pleno centro da cidade, senão como um desastre cultural de proporções nacionais? E como acreditar, por outro lado, que as autoridades públicas municipais, estaduais e federais, bem como setores da iniciativa privada, tenham deixado, estejam deixando, tal fato acontecer?
Talvez isso – a permissão do desastre - diga muito sobre a permanência no país de um desinteresse das elites socioeconômicas pelo acesso, por parte das pessoas em geral, a bens culturais que conscientizam, humanizam e transformam modos de estar no mundo. Para quê, sobretudo, transformar pessoas, principalmente pobres? São mais úteis ao sistema, sem dúvida, do jeito que estão, sem saber sequer de onde vieram, o que as distinguem das coisas – enfim, são mais úteis sem passar efetivamente pela “perturbação” da cultura.
O IMS foi, ao longo dos últimos anos, não só uma referência cultural em meio à brutalidade e banalidade cotidiana de uma metrópole, mas uma referência de modo outro, inteligente, de lidar com a cultura, muito diverso daquele exibido historicamente pelos órgãos municipais e estaduais, viciados no “pão e circo”. O IMS sempre ostentou uma compreensão altamente generosa de público, rompendo com preconceitos históricos e disponibilizando, para as pessoas em geral, obras de arte contemporânea, gestos literários e musicais dos mais elevados.
Sob a sensível direção do poeta Antonio Fernando de Franceschi – um homem raríssimo, da estatura de alguns dos maiores que este país já produziu, um Mário de Andrade, um Antonio Candido -, o IMS vinha desempenhando um papel de agregador e formador de pessoas pela cultura, oportunizando um envolvimento sóbrio, pensado, com a arte. Suas ações o distinguiram, desde o início, de espaços culturais públicos, como os Centros Culturais BH e UFMG, bem como o “engessado”, restritivo, Palácio das Artes.
Em BH como em outras cidades do país, os espaços mantidos pelo IMS configuraram, de meados dos anos 90 para cá, um exemplo extraordinário, sem precedentes, de responsabilidade sociocultural por parte da iniciativa privada. Franceschi, como fiz questão de lhe dizer tantas vezes, foi nosso Ministro da Cultura ideal ao longo deste tempo. E se tudo parece estar desmoronando ante o olhar cínico dos Governos, da mídia e dos “homens cordiais”, convencionais, é porque este país é mesmo, como Bianchi nos provou, cronicamente inviável.

sábado, 31 de outubro de 2009

JORNALISMO | Incidentes de outubro

ANELITO DE OLIVEIRA - O mês de outubro começou e terminou com dois incidentes terríveis em Belo Horizonte, os quais, além de me chamar a atenção, acabaram por me tocar, chocar, entristecer, por razões humanas e culturais: o AVC sofrido pelo jornalista, crítico literário e poeta Alécio Cunha e a morte prematura do artista plástico Fernando Fiúza. São dois dos nomes mais expressivos do cenário cultural e jornalístico da capital mineira, com uma contribuição extraordinária, constante, há anos, e pelos quais sempre tive respeito e admiração. Não cheguei a conhecer Fiúza pessoalmente; talvez o tenha até avistado alguma vez - sua imagem na foto (no "Hoje em Dia" de ontem, diário onde Alécio construiu sua brilhante carreira de jornalista cultural) me parece familiar, correspondendo, alias, à sobriedade que sempre percebi no seu trabalho.
Alécio Cunha, por sua vez, sempre foi um entusiasta das ações culturais que encaminhei ao longo dos anos 90 em Belo Horizonte: o jornal "Não", a revista "Orobó", os livros da Orobó Edições, o Suplemento Literário de Minas Gerais; foi o primeiro a revelar um olhar pró-ativo, na imprensa belorizontina, sobre a minha ida para o Suplemento, atitude que se manteve ao longo dos quase cinco anos em que estive à frente da criatura de Rubião, mesmo nos momentos em que, no próprio “Hoje em Dia”, o poeta Marcelo Dolabela, movido por questões menores, pedia renitentemente ao governador a minha “cabeça”. Super-sociável, Alécio, no exercício do jornalismo, sempre esteve ao lado da generosidade, da solidariedade, configurando-se como um exemplo de dignidade profissional.
Sempre me vi como um amigo seu e sempre o tive como um amigo raro, um grande companheiro de geração, um dos poucos em que se encontram inteligência e sensibilidade sinceras. Quando lancei meu primeiro livro solo em 2000, o fracassado Lama, Alécio estampou notícia e resenha na capa do caderno de cultura do “Hoje em Dia”. Quando publicou seu primeiro livro em 1999, o surpreendente Lírica caduca, escrevi uma resenha no Segundo Caderno do jornal "Estado de Minas", acolhida por um outro escritor e jornalista mineiro admirável, Jorge Fernando dos Santos, que a estampou com o título de “O peso e a prisão em Lírica caduca”. Com o título original – “O peso e a prisão” -, segue aqui essa reflexão sobre Alécio poeta nascente, na esperança de tantos outros encontros, projetos, conversas pela vida.

O peso e a prisão

ANELITO DE OLIVEIRA - O primeiro livro de Alécio Cunha, Lírica caduca (Por Ora, 1999), encontra seu mérito, sobretudo, na coragem de um “eu” confessar seu fracasso, ainda que, talvez, contra sua própria vontade: “(não suporto)” , está escrito ali no encerramento de um poema que parece se empenhar justamente em descrever uma paisagem poética, um cenário de poesia . O encerramento se conecta imediatamente com o título do texto, que é “Anjo manco”, o impossibilitado de caminhar normalmente, aquele que, arrastando-se, não consegue ir muito longe, logo se cansa e para. Realmente – pensamos ao final da leitura – era preciso que um “eu” se anunciasse para que aquele título alcançasse uma maior coerência: a caminhada é insuportável porque falta segurança nas pernas. Contudo, se não estamos no chamado “mundo real” de que falamos comumente e sim numa “realidade de signos” (Haroldo de Campos), é válido perguntar pelo motivo dessa insegurança.
Por força do lugar geográfico que o homem habita, este lugar-Minas, e da atmosfera poética brasileira que o artista respira atualmente, o poema de Alécio Cunha é concentrado em si mesmo, não nomeia nada além de seu próprio corpo que, na verdade, não passa de uma sombra, a ilusão de um corpo, um mito apenas, logo: o autor apenas deseja nomear quando pensa estar nomeando. A insegurança do poeta, seu reconhecimento metonímico indireto, como “anjo manco”, desestabilizado, demonstra uma certa insatisfação com essa incapacidade do poema, estabelecida pelos seus censores disfarçados, de nomear algo mais que si mesmo, de sair de sua sombra. Alécio Cunha não concorda com esse veredicto, não suporta esse quadro supostamente exótico, quer alcançar o fora do poema, trazer esse fora para dentro, mas o poeta, sua máscara-mecanismo para realizar tal gesto, é manco, falta-lhe agilidade para dar o salto, falta-lhe aquela “rapidez” sustentada por Ítalo Calvino como uma das qualidades estéticas fundamentais para o próximo (este) milênio.
Desta visada, outra questão se apresenta, colocando-se mesmo como pano de fundo do mínimo drama do poeta: a tradição poética, que tem inegável presença no trabalho em questão, é um peso, mas o instante poético, a atual cena neoparnasiana que se verifica no Brasil, é uma prisão. Depreende-se um posicionamento ativo diante da tradição mais longínqua e mais recente em poemas como “Pós-Baudelaire”, “Nau Caetana” e, principalmente, “Lendo Drummond”, que tem a astúcia sempre desejável de articular texto e lugar: “exigir da pedra/nenhuma explicação/ pelos caminhos”. Dir-se-ia que o poeta tem consciência de que é preciso desdizer, romper com uma “lírica caduca”, bem como é preciso colocar algo no lugar, pois esse algo é que denuncia a presença de alguém por trás de uma linguagem. É preciso dizer, mas dizer o quê? De uma latente incerteza decorre uma frustração generalizada neste primeiro livro de Alécio Cunha, um constante “fracasso-êxito” (Sartre) que aponta para uma colocação do desatino da existência moderna antes das convenções morais pós-modernas.
Frustração encontra-se, por exemplo, no final do poema que dá título à pequena coletânea, “Lírica Caduca”, e em “Geográfica”. No primeiro: “há uma gota de sangue/em cada luar”; no começo e fim do segundo: “desesperar resposta/desesquecer o tapa/ (...) sumir do mapa”. Ambos estão longe de serem perfeitos do ponto de vista da construção, vão-se enfraquecendo lentamente como se quisessem desistir de sua própria realização, como se se realizassem a contragosto, um enfraquecimento que acaba por constituir o anteclímax da frustração final. No rastro dessa frustração é preciso ver, contudo, o traçamento de uma rápida cartografia da “agoridade”, do espaço-tempo que reúne o ontem e o hoje, passado e presente, Modernismo e Pós-vanguarda. Essa frustração é uma contribuição significativa do poeta Alécio Cunha, principalmente à medida que faz emergir Mário de Andrade (“Há uma gota de sangue em cada poema”) num ponto sanguíneo, o que parece estar dizendo, analogicamente, que o poeta só pode existir como tragédia, não?
Texto publicado no jornal Estado de Minas, Segundo Caderno, em 1999, aqui redigitado por Guilherme Fernando, menino nosso, que Alécio conheceu quando pequeno e sobre quem me perguntava duas semanas antes de adoecer, no mês de setembro último, quando nos reencontramos na redação do Hoje em Dia depois de quase cinco anos de distanciamento em função dos meus muitos deslocamentos.

JORNALISMO | 17 vezes ali havendo

ANELITO DE OLIVEIRA - De fato, chegou ao fim, há dias, o segundo movimento sob o signo do que estou entendendo por havência – e, desde então, contemplo o silêncio a distância de quem estranha. Estou reconhecendo, nesta última noite de outubro, que a 17a carta foi a última, deve ficar como a última, contrariando até a mim mesmo, que relutava que fosse a última: escrever é resistir a desistir, desejar o desejar. Mas continuar dizendo assim, tentando dizer – já que admito, de um certo horizonte, a possibilidade de nada efetivamente ter sido dito 17 vezes ali havendo -, seria ultrapassar o limite que, neste acontecimento escritural, interessa apenas forçar: além dali é surreal, ainda que ali mesmo o seja a seu tanto já também. O que há, uma havência, está no limite do que não há, da ausência. As cartas se destinaram a essa situação, a dar a ver uma cartografia do corresponder, a havência disso que se faz contra a solidão.

domingo, 25 de outubro de 2009

LITERATURA | Criação

décima sétima carta




devo parar de te escrever.
não porque você esteja suficientemente escrita, mas porque a vontade de escrever é só sua - e infinita: uma espécie de morte.
a escrita, lançada daqui, não te alcança.
no fundo, te perde no desejo mesmo de te alcançar
{você bosque demais.
pede notícias, exterioridades, significados -
sempre a ânsia de ter o mundo mais perto.
não há o que remeter para além deste -
o remetente.
a carta é o que não chega a ser -
e, na sua insuficiência,
arfando como um urso na neve,
é.




lembranças.




eu

sábado, 24 de outubro de 2009

LITERATURA | Criação

décima sexta carta





por si só, bastante como se apresenta, incessante movimento no mesmo lugar, indo, vindo, indo - mas não, falta, falto ali, devo faltar,
então, explicações, palavras contra o que está sendo, para desfazer o que quer ser, que ainda não chegou a - e a janela, aberta, fecha
-se, ali, lembra, não mais percebe o aberto, a eternidade se dando a ver, como no poema de rilke, sem a apreensão da finitude, puro animal vendo,
a lembrança, os comprometimentos, o trabalho o trabalho o tripalium!, o mundo como tortura, os outros como inferno - explicações,
o verdejante amanhecer dos singelos povoados, o amarelecer da tarde sobre o mar enquanto andamos -




sem palavras.





lembranças.





eu

LITERATURA | Criação

décima quinta carta


era para ter sido enviada de lá, com o que se passava [relevos, eucaliptos, casebres], à medida que, sem chegar a pensar [desamparo, operárias, imundície]. todavia, resistimos a nós mesmos, como se houvesse possibilidade de sair integralmente disso que sempre foi a condição intramundana [um clarão na merda], como se houvesse saída para fora quando tudo é absolutamente dentro [percepto]. pensamos, duvidamos, voltamos - com a letra no bolso.
lembranças.
eu